Houve um tempo em que o ser humano olhava para o céu em busca de respostas. Deus era a referência última para compreender a existência, a moral, o destino e o sentido da vida. Com a modernidade, porém, esse lugar começou a ser ocupado por outras forças. Nietzsche, Marx e Freud, cada um a seu modo, deslocaram atributos tradicionalmente associados ao divino para novas instâncias de autoridade e transcendência: o super-homem, a superestrutura e o superego. A vontade de poder, as estruturas econômicas e sociais e o aparelho psíquico passaram a explicar, em diferentes perspectivas, aquilo que antes era relacionado ao sagrado.
O filósofo francês Emmanuel Mounier (1964) percebeu nesse movimento a substituição de referências judaico-cristãs por novos “deuses” políticos, filosóficos e psicológicos. O problema não era simplesmente abandonar Deus, mas descobrir o que ocuparia o vazio deixado por Ele.
Hoje, esse vazio parece ter encontrado novos templos: o mercado, o consumo, a tecnologia e as redes sociais. Vivemos na velocidade da internet, em uma cultura marcada pelo imediato e pelo descartável. Aquilo que deveria amadurecer — pensamentos, relações, convicções e afetos — é frequentemente transformado em conteúdo para disputar alguns segundos de atenção. As grandes empresas de tecnologia participam dessa economia da atenção, na qual até a reflexão pode se tornar mercadoria.
Lauren Berlant (2011), ao falar do “otimismo cruel”, ajuda a compreender essa contradição: o capitalismo promete satisfação, mas muitas vezes produz frustração, perda e vazio. A liberdade individual e a multiplicidade dos estilos de vida cresceram, mas, paradoxalmente, também aumentaram a solidão e a busca por sentido.
Marx, Nietzsche e Freud contribuíram decisivamente para compreender o ser humano como histórico, complexo e atravessado por forças econômicas, culturais e inconscientes. Entretanto, tanto o capitalismo quanto o comunismo, em suas experiências históricas, revelaram limites e produziram conflitos, exclusões e polarizações.
Diante disso, surgem perguntas inevitáveis: a extrema direita e a extrema esquerda não acabam aprisionadas pela própria polarização? O centro é realmente neutro ou tende a aproximar-se de quem concentra poder? Como compreender a relação entre fé e política em um Estado laico?
Talvez a saída esteja menos na conquista do poder e mais na educação. Paulo Freire (1970) advertia que, se a educação não liberta, o sonho do oprimido pode ser tornar-se opressor. Kant (1784), por sua vez, compreendia a autonomia como saída da menoridade intelectual.
No século XXI, educar para pensar, questionar e discernir pode ser o caminho para recuperar aquilo que a sociedade contemporânea mais procura: sentido, liberdade e dignidade humana.
Pe. Judinei Vanzeto, SAC – Jornalista

