Até pouco tempo atrás, se dizia que o Brasil era o maior país católico do mundo e ninguém ousava contestar esta afirmação. Porém, pesquisas recentes estão demonstrando que a fé católica de muitos “católicos” brasileiros não passa do batismo, talvez Primeira Eucaristia, “casamento na Igreja” e missa de sétimo dia. Para estes “católicos” não é importante a pertença a uma comunidade, a prática sacramental e, principalmente, não lhes interessa a vivência de uma fé transformadora, que o faça assumir compromissos reais com a pessoa humana, no espírito da passagem de Mateus que define quem é quem no seguimento de Jesus: “Eu tive fome e sede, estava nu, na prisão, doente, era migrante, marginalizado da sociedade, sem voz nem vez e tu me acolheste” (Mt 21, 35-46). Ou, não me reconheceste nestes “mais pequeninos” e, talvez por isso, não me acolheste.
Também é importante recordar que houve um tempo em que as pessoas se convertiam e eram batizadas. Hoje, há um grande esforço, na Igreja, para converter os batizados.
Porém, eu vejo com bons olhos e grande otimismo a “crise da descatolização” que está ocorrendo no Brasil. Vivemos um tempo de autentificação da fé cristã-católica. O que está ocorrendo é a desmontagem da simpática máscara de nossa religiosidade, que chamaríamos, com mais clareza, de maquiagem. Ser cristão não é assunto de história. Ser cristão é uma adesão pessoal. E uma adesão pessoal a Jesus Cristo e seu Projeto de “Reino”, cujos sinais se tornam visíveis na fé transformadora dos seus seguidores, discípulos/missionários que buscam um mundo mais justo e solidário.
Hoje, quando um jovem diz que é católico é porque ele se sente católico, não porque a cultura dele o obriga a declarar-se católico. Acho que essa distinção é necessária ser feita e não a estamos fazendo, nem na imprensa, nem nas estatísticas, nem nas análises sociológicas, nem antropológicas. O Brasil foi sempre um país em que as pessoas se declaravam católicas, viviam num contexto católico por simples conveniência. Mas que nem sempre frequentavam os templos católicos, nem viviam de acordo com o ensinamento do evangelho. Não é que hoje todos sejam mais autenticamente fiéis a Cristo. Mas estamos procurando ser mais autênticos. Hoje a declaração de adesão a Cristo é mais firme e mais consciente, porque existem tantas outras opções.
Tenhamos presente que não é saudável o discurso da quantidade, embora seja este o foco das notícias, mas a qualidade de nossa fé. A volta às origens do cristianismo faria muito bem a todos nós, quando lembramos que o cristianismo era religião de minorias, provido de um discurso pessoal, social, comunitário e comprometido com a Boa-Nova de Jesus e a vivência de sua ressurreição que começa aqui e agora, sem pedágios, promessas de céu e medo do inferno.
Pe. Lino Baggio, SAC

