Colunista

Cultivar uma espiritualidade da conexão

No mundo contemporâneo, a tecnologia se infiltra em cada canto da nossa existência, tecendo uma teia digital que nos conecta e transforma. No entanto, essa mesma era abarca um paradoxo: enquanto a tecnologia nos aproxima de pessoas e lugares distantes, um receio crescente da outra pessoa se instala, erguendo muros entre diferentes culturas, raças e crenças, fragmentando-nos em bolhas isoladas.

Na Encíclica Caritas in Veritate, de 2009, o Papa Bento XVI já alertava que “à medida que a sociedade globaliza-se, torna-nos vizinhos, mas não irmãos”. Esta reflexão repercutiu nas preocupações do Papa Francisco, que advertia contra o perigo de nos alienarmos na virtualidade, perdendo a conexão com a realidade e com a fraternidade humana essencial (Fratelli Tutti, n. 33).

Diante desse cenário, surge um chamado urgente aos seguidores de Jesus: cultivar uma espiritualidade da conexão, tecendo pontes entre culturas, raças e religiões. Um apelo para transcender fronteiras com compaixão, nutrindo redes de solidariedade e cooperação.

A indiferença se ergue como um dos maiores males da nossa era, enraizada no individualismo e no egoísmo. Ela nos distancia do sofrimento alheio, cegando nossa capacidade de empatia e nosso engajamento social. Como observava o Papa Francisco, devemos migrar da cultura da indiferença para a cultura do encontro, rejeitando a superficialidade das relações em favor de encontros autênticos e transformadores com o outro, de modo que ele destacava: “No mundo atual, esmorecem os sentimentos de pertença à mesma humanidade; e o sonho de construirmos juntos a justiça e a paz parece uma utopia de outros tempos. Vemos como reina uma indiferença, fria e globalizada, filha de uma profunda desilusão que se esconde por trás dessa ilusão enganadora: considerar que somos onipotentes e esquecer que nos encontramos todos no mesmo barco” (Fratelli Tutti, n. 30).

A parábola do rico e Lázaro (Lc 16, 19-31) alerta com clareza sobre os perigos da indiferença: a insensibilidade do rico à miséria de Lázaro revela a desumanização que aquela provoca. Essa atitude de coração endurecido contrasta com o chamado cristão à compaixão, exemplificado na vida e nos ensinamentos de Jesus.

Com isso, somos convocados a reconstruir nossa sensibilidade coletiva, rejeitando a indiferença e abraçando a compaixão e a solidariedade como respostas aos desafios do nosso tempo. A mensagem cristã de amor e compaixão ressoa como um antídoto vital para as divisões e desumanizações que afligem nossa sociedade globalizada.

A verdadeira riqueza reside em investir no amor, na promoção da vida, na renúncia ao ego em favor do serviço ao próximo e em obras de caridade libertadora para com os mais pobres e marginalizados. Ao integrar a solidariedade e a transformação das relações humanas, podemos cultivar uma cultura mais compassiva e inclusiva. Esta visão não apenas fortalece os laços de amizade e de inclusão social, mas edifica um caminho rumo a um mundo onde a fraternidade universal prevaleça, construindo, assim, o Reino de Deus mais próximo e conectado à realidade humana.

Portanto, sejamos irmãos e irmãs na fé de todos os que estão à procura do Senhor; que nossa presença solidária e nossa escuta ativa nos conectem com o mundo e com as pessoas, aprimorando nossa habilidade de decodificar o significado dos anseios, das palavras e das nossas atitudes.

Caminhemos juntos, durante este ano de 2026, com muita fé e esperança, mantendo-nos conectados ao Senhor, intensificando a nossa oração e a nossa solidariedade.

Pe. Lino Baggio, SAC

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