Colunista

Quando o clique virou mercadoria

Maria acorda, pega o celular e, antes mesmo do café, já percorreu notícias, mensagens e anúncios. Sem perceber, deixou rastros: desejos, emoções, hábitos. Cada toque na tela virou dado. Cada dado, lucro. Assim começa a história silenciosa do capitalismo emocional.

Vivemos um tempo em que tudo foi descentralizado — inclusive o ser humano. Na era da internet comercial, não somos apenas usuários: somos produtos. As grandes plataformas capturam nossa atenção, analisam nossos comportamentos e transformam sentimentos em mercadoria. É o chamado capitalismo de vigilância: algoritmos que aprendem quem somos para nos vender aquilo que ainda nem sabíamos desejar.

Pedro, pequeno empreendedor, acredita estar construindo autonomia ao divulgar seu trabalho nas redes. Mas, como milhões de outros, trabalha gratuitamente para as plataformas. Produz conteúdo, gera engajamento e alimenta sistemas que concentram poder em poucas mãos. Um novo feudalismo digital se instala, onde os “senhores” controlam dados, visibilidade e oportunidades.

Nesse cenário, a felicidade também virou produto. Cria-se a carência, oferece-se a solução. Emoções são manipuladas, relações fragilizadas, comunidades esvaziadas.

Talvez o maior desafio do nosso tempo seja este: recuperar o humano em meio às máquinas. Resgatar vínculos reais, consciência crítica e espiritualidade, para que o futuro digital não nos roube aquilo que nos torna verdadeiramente pessoas.

 

Por Pe. Judinei Vanzeto, SAC – Jornalista e mestrando em Comunicação e Cultura pela Universidade de Buenos Aires – Argentina.

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