Padre Lino Baggio

Busquemos o essencial

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A vida prazerosa dos dias modernos já não distingue aquilo que é supérfluo daquilo que é essencial para uma vida digna. Fomos engolidos pelo vício do consumo. Tudo o que se necessita para bem viver está nas prateleiras do mercado ou nas passarelas do exibicionismo e da ostentação sem limites.

Há muito que o sentido da posse se sobrepõe à simplicidade de uma vida mais afeita às pequenas alegrias do dia-a-dia. Como se os bens materiais, o status, as baboseiras da moda, do consumismo, do supérfluo pudessem suplantar as verdadeiras riquezas que nos realizam plenamente.

Estamos empanturrados com guloseimas coloridas que a sociedade de consumo nos enfia goela abaixo, sem, no entanto, proporcionar a saciedade que nosso coração exige. O supérfluo intoxica e engorda a ambição, entorpece nossa famélica alma, prisioneira que está dentre as quinquilharias de uma sociedade consumista por excelência. Perdemos o referencial da verdadeira riqueza, aquela que dá sentido à nossa vida.

Certa vez, o Papa Francisco comentou: “Por que comprar um relógio caro, quando aquele mais simples e barato marca as horas da mesma maneira”? Por que gastar mais com um produto de marca, quando o similar é tão eficiente quanto o outro? Por que um caixão de luxo, quando debaixo da terra seremos pó como qualquer indigente enterrado em simples mortalha? E assim por diante.

A verdade é que o sentido de riqueza terrena, de competitividade social, de posse e poder estão cegando a vida humana, onde aquele que tem mais se acha superior, merecedor de distinções e exige ser respeitado e venerado na proporção dos bens que conquistou.

Seu coração e sua mente estão aprisionados pela fixação no ter, no prazer. Desconhecem a simplicidade e a beleza do ser, contemplar, agradecer pelo privilégio da vida. Uma vítima das últimas enchentes em São Paulo perdeu tudo o que tinha: casa, roupas, alimentos (uma das filhas perdeu um pé), mas ainda dava graças a Deus por não perder sua maior riqueza, a vida. “Posso recomeçar do zero”, dizia com a alma em júbilo.

Já uma história que me parece fictícia, mas bem ilustrativa, nos fala de um pai rico, dono de inestimável fortuna e poderes políticos, que resolveu levar seu filho único para conhecer o mundo dos pobres. Levou-o a uma comunidade bem carente, desejando que seu filho pudesse descobrir o quão triste é a vida dos empobrecidos e assim dar maior valor à própria riqueza. Um dia depois, foi buscá-lo. Perguntou de imediato: “Aprendeu, meu filho, a diferença entre pobres e ricos?”.

O filho foi logo dizendo: “Sim, meu pai, hoje descobri o valor da riqueza verdadeira, porque enquanto vivo prisioneiro na nossa mansão, dentro de um mirrado jardim, eles têm uma floresta inteira para explorar; enquanto tenho um quarto só para mim, que depende de complicados sistemas de iluminação e ventilação, eles tem a brisa refrescante da natureza e a luz da lua, das estrelas a iluminar suas vidas; enquanto dependo de tecnologia para ouvir boa música, eles ouvem o canto dos pássaros e os sons dos répteis na lagoa; enquanto me alimento com enlatados e produtos industrializados, eles colhem frutos nos pés… Sim, pai, hoje percebi como somos pobres!”

Saudades do café moído na hora, da carne conservada em gordura animal, do leite gordo e cru bebido na caneca da mangueira, da água pura na mina, da alface, do agrião, da batata doce sem agrotóxicos!

Neste tempo de Quaresma, deixemos o que nos é supérfluo e busquemos o essencial. Pois não trouxemos nada para o mundo e dele nada poderemos levar.

Pe. Lino Baggio, SAC

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