Piedade popular

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O mês de junho no Brasil é caracterizado pelos festejos populares em virtude de alguns santos no calendário católico, como Santo Antônio, São João, São Pedro e Paulo, além das tradicionais devoções ao Sagrado Coração de Jesus e à Virgem Maria. A piedade popular é o conjunto de expressões de fé – individuais ou comunitárias – nascidas do encontro do Evangelho com a vida, a cultura e a sensibilidade do povo, que brotam dentro do contexto da fé cristã e expressam uma sede de Deus profundamente enraizada no coração dos simples, gerando atitudes como confiança, sacrifício, paciência e solidariedade. Já a religiosidade popular é uma realidade mais ampla: refere-se à busca religiosa presente em todos os povos e culturas, expressão natural do desejo humano de Deus, mas que nem sempre se fundamenta na revelação cristã. Assim, enquanto a religiosidade popular é universal e pode assumir muitas formas, a piedade popular é expressão propriamente cristã, um verdadeiro tesouro do Povo de Deus que, mesmo nascendo fora da liturgia, conduz ao encontro com Cristo. A relação entre liturgia e piedade popular sempre acompanhou a vida da Igreja. O Concílio Vaticano II recorda que toda celebração litúrgica é ação de Cristo e da Igreja, superior a qualquer outra expressão de fé; ao mesmo tempo, reconhece que a piedade popular é ação do Espírito e produz frutos de graça. Assim, liturgia e piedade popular não são opostas, mas devem caminhar em harmonia, respeitando sua hierarquia e seu papel na vida espiritual do povo.

A liturgia, especialmente na celebração da Eucaristia, é fonte e cume da vida cristã, porque foi querida por Cristo e nos insere diretamente no Mistério Pascal; já a piedade popular, com suas formas simples e simbólicas, aproxima a fé da vida diária e favorece a oração do coração. Ambas se enriquecem quando são bem orientadas: a piedade popular conduz à liturgia, e a liturgia ilumina e purifica a piedade popular. Assim sendo, expressões da piedade popular sejam acolhidas com discernimento na liturgia. Para isso, a formação de clérigos e cristãos leigos e leigas é indispensável: é preciso ensinar a linguagem da liturgia, suas raízes na história da salvação e, também, transmitir o valor das devoções que alimentam a vida espiritual e formam gerações de cristãos. Essa integração evita desvios, impede reducionismos e fortalece uma vida espiritual equilibrada, capaz de unir celebração, oração pessoal e compromisso missionário.

 

A piedade popular e a evangelização

A piedade popular, para servir verdadeiramente à evangelização, além de enraizar-se nos símbolos e gestos que brotam da fé do povo, precisa inspirar-se na Sagrada Escritura, manter a centralidade de Jesus Cristo, integrar-se ao ritmo da liturgia da Igreja e não se desviar para práticas mágicas ou espiritualidades de mercado e outras manipulações. É importante também distinguir piedade popular de folclore, que possui seu valor cultural, mas não constitui espiritualidade cristã. Assim, a piedade popular permanece expressão autêntica da fé quando conduz ao Evangelho, fortalece o sentido de Igreja e ajuda o povo a encontrar Cristo no cotidiano. Para discernir a piedade popular de outras manifestações religiosas populares, a Igreja estabeleceu alguns critérios. Devem ser evitados: manifestações cultuais que não expressam uma verdadeira adesão de fé em Cristo; a hipervalorização do dado emotivo, sem que isso comprometa o devoto com um real caminho de fé; o fanatismo, que incapacita o fiel de captar a sã tradição cristã; as atitudes fortemente individualistas, que não se integram na comunidade de fé; e a evasão da realidade, sem compromisso com o Reino de Deus.

É urgente ver como instrumento de evangelização as expressões culturais da piedade popular conforme orientou o Papa Francisco, é necessário que a Igreja, através dos bispos diocesanos e as conferências Episcopais, “valorizem e protejam as culturas locais com seu patrimônio de sabedoria e espiritualidade como riqueza para toda a humanidade”.

 

Dom Edgar Xavier Ertl – Diocese de Palmas-Francisco Beltrão

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