Era uma tarde comum. Um grupo de jovens estava reunido em uma sala. Todos tinham acesso a milhares de músicas, vídeos, filmes e conteúdos em seus celulares. Bastava um toque na tela. Nunca foi tão fácil ouvir música, assistir a espetáculos ou registrar imagens. No entanto, algo parecia faltar.
Ninguém cantava.
A cena pode parecer banal, mas revela uma questão profunda do nosso tempo. Temos cada vez mais acesso a experiências mediadas por máquinas, mas cada vez menos participação direta nelas. O que antes era vivido, hoje muitas vezes é apenas consumido.
Lewis Mumford, um dos mais importantes pensadores da tecnologia no século XX, já alertava para esse risco. Segundo ele, a máquina pode ser uma extraordinária aliada da arte e da cultura. Ela amplia possibilidades, preserva obras, aproxima pessoas e permite novas formas de expressão. O problema surge quando passa a substituir a experiência humana, em vez de enriquecê-la.
Ouvir música gravada é uma maravilha. Mas a música perde algo quando ninguém mais canta. Fotografar é importante. Mas a capacidade de contemplar diminui quando olhamos o mundo apenas através das lentes. Viajar de automóvel facilita a vida, mas podemos esquecer a riqueza de caminhar, observar e sentir o ambiente ao nosso redor.
A tecnologia não é inimiga da humanidade. O verdadeiro perigo aparece quando deixamos de exercitar nossas capacidades mais profundas: ver, sentir, tocar, criar, contemplar, dialogar e celebrar.
São Vicente Pallotti compreendia algo semelhante ao insistir que cada pessoa é chamada a ser protagonista da missão. A fé não pode ser terceirizada. O amor não pode ser automatizado. A oração não pode ser reduzida ao simples consumo de conteúdos religiosos. A vida cristã exige participação, encontro e experiência.
Vivemos em uma época marcada pela inteligência artificial, pelas redes sociais e pela comunicação instantânea. Tudo isso pode servir ao bem. Contudo, nenhuma tecnologia substitui um abraço, uma conversa sincera, uma comunidade reunida em oração ou um gesto concreto de solidariedade.
Talvez a pergunta mais importante não seja o que as máquinas podem fazer por nós, mas o que estamos deixando de fazer por causa delas.
Pe. Judinei Vanzeto, SAC – Jornalista

