“Quem dizem os homens ser o Filho do Homem? E vós, quem dizeis que eu sou?” Jesus faz essa pergunta aos seus discípulos de ontem e de hoje. E os cristãos são interpelados a responderem de maneira pessoal e comunitária a respeito da identidade daquele que é o Mestre de suas vidas. À resposta que se seguirá, dependerá a fé cristã, compreendida como resposta pessoal ao convite de Jesus para segui-lo e a partir dos conteúdos que compõem os fundamentos dessa fé, transmitidos de geração em geração por uma comunidade de seguidores. No entanto, tal resposta está condicionada àquela imagem ou expectativa criada em torno a Jesus de Nazaré.
Muitas imagens surgiram ao longo das épocas, refletindo as compreensões que cristãos ou não cristãos cultivavam sobre Jesus, sua vida e missão. Mesmo a Tradição Testamentária, mais contemporânea dele que a nossa, revelou diversos retratos que as primeiras comunidades de cristãos fizeram a respeito do Nazareno. Tal pluralidade é observada nas abordagens dos Evangelhos, onde cada autor pretendeu apresentar para sua comunidade os aspectos mais relevantes para um autêntico seguimento cristão. Mas o que se verificou até aqui, com respeito a essa pluralidade de leituras, foi uma complementariedade salutar para o cultivo de uma fé responsável sobre o homem Jesus, confessado como Cristo.
A fé em Jesus Cristo não é algo evidente como pode ter sido em outros tempos. O feliz desaparelhamento da Igreja com os Estados foi propulsor das ruínas de uma fé condicionada à obviedade tradicional, isto é, do tornar-se cristão pelo simples fato de se nascer numa família ou num país de maioria cristã. Também uma nova maneira de relação com o Sagrado, acentuada na pós-modernidade, reivindica outro status para a experiência de fé, com maior sentido para a existência, com menor vínculo a uma instituição religiosa. A não evidência de uma fé que se reclama cristã exige daqueles que são responsáveis por sua transmissão a promoção de outras maneiras de manter tal fé viva e de despertá-la naqueles que não a conheçam. Os métodos colonizadores não se adequam mais para os nossos tempos, tampouco a fé desejará ser detida à robustez das religiões e de seus representantes. Talvez outro cristianismo, mais livre do peso institucional e mais ao estilo vivencial de Jesus Cristo vingará com sentido para muitos.
Mas para que isso aconteça, é imprescindível que Jesus de Nazaré, quem afirmamos ser o Filho de Deus, seja alguém com sentido para a vida das pessoas, que não seja um estranho por quem é fácil nutrir certa indiferença. É imprescindível vê-lo e tê-lo como um irmão solidário na caminhada de nossas vidas, sempre pronto a nos receber em seus braços redentores, sempre atento às nossas alegrias e tristezas, sempre companheiro fiel até o fim. Jesus Cristo precisa ser reconhecido por nós como um amigo, tal como ele mesmo deseja e promove aos que abrem a porta do coração permitindo que ele entre. Tudo isso contribui com a fé e com seu progresso verdadeiro, como fonte de sentido para a vida cristã. Talvez por isso, quando a Igreja se vê sem rumo nas estradas da vida, ela convida-nos a voltarmos para Jesus Cristo e a renovar nosso encontro com ele. Foi assim que o Papa Francisco inaugurou seu ministério junto de seus irmãos e irmãs na fé: “Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar” (EG 3).
Nesta esteira, é fundamental que nos voltemos para Jesus, como quem volta ao primeiro amor, a fim de reacender o desejo de segui-lo e de se tornar um com ele. Parafraseando Karl Rhaner, “nós os cristãos e as cristãs do futuro, ou seremos seguidores de Jesus por termos feito uma experiência com ele, com sentido para nossas existências, ou não seremos cristãos, e nem os costumes e tradições da Igreja nos manterão com os olhos fixos nele”.
A fé cristã exige um reconhecimento e resposta pessoal à pergunta que o Mestre dirige a cada um de nós. Cabe-nos respondê-la na liberdade de quem reivindica para si o amor do amado.
Pe. Lino Baggio, SAC

